Onde Dilma surpreendeu na entrevista ao Jazeera

Aula de jornalismo
Por Paulo Nogueira, DCM -
 
Foi uma brilhante lição de jornalismo a entrevista que o jornalista Mehdi Hasan, do Al Jazeera, fez com Dilma no programa Up Front.

Inglês de ascendência paquistanesa, Hasan já era conhecido dos brasileiros pelo calor que deu a FHC.

FHC, numa demonstração obtusa de vaidade, quis falar em inglês e se enrolou.

Dilma, inteligentemente, se expressou em português. O ritmo das respostas mostra que ela entendia perfeitamente o que Hasan perguntava.

Hasan é um entrevistador agressivo — mas que jamais ultrapassa os limites da civilidade. Objetivo, leva o interlocutor de volta ao foco caso tergiverse. Mas jamais o impede de responder a qualquer coisa.

É um tipo de jornalista que você não encontra no Brasil. Entrevistas, por aqui, têm quase sempre o sabor da bajulação e da cumplicidade.

Um exemplo disso foi o Roda Viva com Temer antes que ele caísse em desgraça. Muita lantejoula, muitas flores, muitos sorrisos — e nada de confronto.

Todas as semanas você vê algo parecido em programas como o de Mariana Godoy, para citar um caso.

Uma entrevista sem atrito — dentro dos limites da civilidade — não merece ser catalogada como jornalismo. É entretenimento disfarçado de jornalismo.

As escolas de jornalismo deveriam passar a entrevista de Hasan com Dilma a seus alunos e dizer: “É assim que se faz, pessoal.”

Hasan não surpreendeu pelo tom duro, repito.

A surpresa veio de Dilma, de sua reação a Hasan. Ela fez exatamente o mesmo: foi dura sem ser grosseira. Não se perdeu, ao contrário do que acontecera com FHC, sob a pressão do entrevistador.

Todas as suas respostas tiveram começo, meio e fim.

Admitiu, candidamente, que errou no julgamento do caráter de Temer quando Hasan lembrou elogios que ela fizera a ele num passado não tão remoto assim.

Dilma fez questão de dizer que Temer traiu não especificamente a ela, mas ao país por ter colocado em ação um programa conservador que fora rejeitado pelos eleitores nas eleições.

O único vacilo de Dilma veio quando Hasan evocou seu passado e perguntou o que ela estava fazendo efetivamente contra o golpe.

Ele evidentemente cobrava dela, e não só dela, uma postura mais enérgica, vibrante, combativa — nas ruas.

Como todo bom jornalista, Hasan enxergou um ponto central na resistência ao golpe: a frouxidão das manifestações.

E é exatamente isso que faz Temer chegar a 2017 ainda com a faixa no peito.
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